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Quando a falta organiza a vida: saúde mental e desigualdade social

Por que o sofrimento psíquico não pode ser tratado apenas como uma questão individual.

Nunca se falou tanto em saúde mental.
Nunca se vendeu tanto autocuidado.
E, paradoxalmente, nunca estivemos tão cansados, ansiosos e adoecidos.

Talvez esse mal-estar diga menos sobre as pessoas e mais sobre a forma como a vida se organiza hoje.

A pergunta que precisa ser feita é simples e desconfortável: é possível cuidar da saúde mental quando a vida inteira é atravessada pela falta? Falta de tempo, de dinheiro, de descanso, de previsibilidade, de apoio. Quando a falta deixa de ser um episódio e se torna uma condição contínua, o psiquismo não encontra pausa. Ele se ajusta para sobreviver. E sobreviver, quando vira regra, tem custo emocional, corporal e relacional.

Por isso, saúde mental e desigualdade social não são temas paralelos. São dimensões do mesmo problema. A desigualdade não se manifesta apenas em dados estatísticos; ela aparece na vida cotidiana, no modo como as pessoas organizam seus dias, tomam decisões e lidam com seus próprios limites. Ela está presente na pessoa que acorda já fazendo contas, decide qual conta vai atrasar, corta o essencial e segue trabalhando com um nó constante no estômago — não por pessimismo, mas por insegurança real. Está na mãe ou na avó que sustenta uma dupla jornada de trabalho e cuidado, sem pausa legítima, e que, quando finalmente deita, percebe que o corpo está exausto, mas a mente não consegue descansar. Está também no jovem que tenta estudar enquanto precisa trabalhar cedo, vive em ambientes barulhentos, sem espaço e sob a pressão permanente de “dar certo”.

Há ainda o trabalhador que não adoece de forma abrupta. Ele não “quebra” de uma vez. Vai se esgotando aos poucos: o humor se altera, o sono piora, a paciência diminui, a alegria se esvazia. Até que, em algum momento, o corpo simplesmente não entrega mais. O que muitas vezes é interpretado como fragilidade individual é, na verdade, o efeito acumulado de uma vida sustentada no limite.

Essas experiências ajudam a compreender um ponto central: em contextos de desigualdade, muitos sintomas não são traços de personalidade, mas respostas psíquicas a uma organização social que exige adaptação contínua sem oferecer sustentação suficiente. A insegurança econômica, por exemplo, produz um estado de alerta permanente. A mente aprende a antecipar riscos, calcular perdas e desconfiar do futuro. Nesse cenário, ansiedade não é exagero; é adaptação. Insônia, irritabilidade, dificuldade de concentração, compulsões e culpa constante não surgem do nada — são formas de o sujeito tentar se manter funcional em um ambiente instável. Aqui, o sintoma deixa de ser apenas individual e passa a funcionar também como um conceito social.

A desigualdade, além de produzir sofrimento, define quem consegue acessar cuidado. Psicoterapia, psiquiatria, medicação, atividades físicas, lazer, alimentação adequada e tempo para acompanhamento profissional dependem de recursos financeiros, tempo disponível e acesso territorial. Quando esses recursos faltam, a saúde mental deixa de ser um direito vivido e se aproxima de um privilégio. O sofrimento é amplo, mas as possibilidades de cuidado são desigualmente distribuídas. Essa disparidade aprofunda o adoecimento e reforça a sensação de exclusão.

Somado a isso, há uma camada contemporânea que intensifica o mal-estar: a vida digital. Em uma realidade já marcada por cobrança, pressa e falta, as redes sociais frequentemente ampliam comparação, inadequação e culpa. A pessoa não apenas enfrenta limites concretos, como também convive diariamente com vitrines de sucesso, consumo e felicidade, como se a vida fosse um desempenho contínuo. Quando existir passa a ser sinônimo de performar, o sofrimento tende a ser silenciado — e o sujeito adoece tentando parecer bem.

Nesse ponto, a psicanálise oferece uma leitura que ajuda a nomear o que está em jogo sem simplificar demais. Sigmund Freud, em O mal-estar na civilização (1930), já indicava que parte do sofrimento humano não se origina apenas no mundo interno, mas também nas exigências e renúncias impostas pela vida em sociedade. Décadas depois, Jacques Lacan, ao discutir em 1972 o chamado “discurso do capitalista”, ajuda a compreender uma lógica social que promete satisfação constante, acelera o desejo e empurra o sujeito para o “mais” — mais produtividade, mais consumo, mais imagem — enquanto reduz os espaços de elaboração, limite e descanso. Em termos simples: quando a sociedade cobra demais e sustenta pouco, a angústia encontra terreno fértil.

Por isso, insistir apenas em soluções individuais pode se tornar insuficiente e, em certos casos, injusto. Cuidar de si importa, sim — mas precisa ser possível. E possibilidade não é apenas uma escolha pessoal: é uma construção social. Assim como o sintoma, o cuidado também é atravessado pelas condições de vida.

É nesse ponto que a discussão precisa avançar para além do indivíduo. Onde a desigualdade se instala, torna-se indispensável falar de políticas públicas, acesso efetivo aos serviços de saúde mental, cuidado no território, escola como espaço de prevenção e acolhimento, proteção social e uma cultura menos punitiva com quem não consegue performar bem o tempo todo. Saúde mental não se sustenta apenas com orientação individual; ela depende de uma organização social que reconheça limites humanos.

Falar de saúde mental sem falar de desigualdade é produzir um discurso incompleto — e, muitas vezes, injusto. O sofrimento não surge no vazio: ele se organiza a partir da história de cada sujeito, mas também do lugar que esse sujeito ocupa na sociedade. Quando a falta é permanente, quando o descanso é negado e o cuidado se torna privilégio, o adoecimento deixa de ser exceção e passa a funcionar como um sintoma coletivo.

Não se trata apenas de ensinar as pessoas a “lidar melhor” com o que sentem, nem de responsabilizá-las individualmente por aquilo que é estrutural. Enquanto a vida for sustentada no limite, não haverá técnica, diagnóstico ou força de vontade capazes de resolver o que é produzido socialmente. A saúde mental não se sustenta apenas no indivíduo: ela se constrói nas condições de vida, no acesso real ao cuidado, no direito ao descanso e na possibilidade de existir sem estar sempre em modo sobrevivência.

Artigo escrito pela psicóloga Dra. Angélica Berres que utiliza a psicanálise como principal abordagem, oferece insights sobre como evitar e gerenciar a ansiedade no dia a dia.

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