/Quando o cuidado falha: psicóloga alerta para o papel da escola na proteção da infância

Quando o cuidado falha: psicóloga alerta para o papel da escola na proteção da infância

A psicóloga Angelica Berres trouxe à tona um tema sensível e urgente: a importância do cuidado na infância e o papel fundamental da escola na identificação e no enfrentamento de situações de violência contra crianças e adolescentes. Em sua análise, ela chama atenção para um aspecto muitas vezes invisível, o fato de que nem toda violência chega de forma explícita. Em muitos casos, ela se instala de maneira silenciosa, se mistura à rotina e acaba sendo confundida com práticas culturais ou formas equivocadas de educação.

Nem toda violência contra uma criança chega fazendo barulho. Às vezes, ela chega devagar. Se instala no cotidiano, se mistura à rotina, se esconde em práticas que muita gente ainda insiste em chamar de educação, correção, costume ou assunto de família.

Em outros casos, nem chega a ser nomeada. Vai acontecendo. Vai se repetindo. Vai ocupando espaço na vida da criança como se fosse apenas mais uma parte do dia.

Mas não é.

Há algo profundamente grave quando a violência acontece justamente no lugar em que a criança deveria encontrar proteção. Porque a infância não é só uma etapa da vida. É o tempo em que alguém começa a aprender, pouco a pouco, se o mundo é um lugar minimamente confiável. É o tempo em que o sujeito vai se constituindo a partir do cuidado, do olhar e da presença de um outro. E, quando esse outro falha de forma radical – pela negligência, pelo abuso, pela omissão, pela invasão, pelo medo – o que se rompe não é apenas uma expectativa. Rompe-se algo do amparo.

E uma criança sem amparo não sofre apenas no presente. Ela precisa seguir existindo em uma realidade que, muitas vezes, é excessiva demais para ser compreendida. Nem sempre consegue dizer o que vive. Nem sempre sabe nomear. Falta palavra, falta recurso, falta quem sustente essa dor com ela. Mas o sofrimento aparece. No corpo. No comportamento. No medo. No silêncio. Na agressividade. No rendimento que cai. No olhar que muda. Na criança que, de algum modo, já não consegue estar no mundo do mesmo jeito.

 

A criança sente antes de entender. E, muitas vezes, sofre muito antes que alguém perceba.

Talvez uma das faces mais perversas da violência seja justamente essa: ela pode se naturalizar. Pode deixar de causar espanto. Pode virar paisagem. E, quando a dor de uma criança já não produz interrupção, quando já não convoca cuidado, há algo muito errado no modo como essa sociedade se organiza.

 

Porque a violência contra crianças e adolescentes não começa apenas no ato extremo. Muitas vezes, ela começa antes, no que vai sendo repetido e banalizado: na humilhação cotidiana, na ridicularização, no abandono afetivo, na palavra que fere, no corpo que não é respeitado, na escuta negada, na ausência de um adulto que proteja e contenha. Começa quando a criança deixa de ser reconhecida como sujeito e passa a ocupar o lugar de objeto do excesso, do descuido, da indiferença ou da violência de alguém.

A psicanálise nos ajuda a lembrar algo fundamental: ninguém se constitui sozinho. É na relação com o outro que a criança vai podendo organizar o que sente, dar algum contorno ao que a atravessa, construir um lugar para si. Por isso, o cuidado não é detalhe. Ele é condição. Quando esse cuidado falha de forma grave e repetida, o que se produz não é apenas sofrimento pontual. Produz-se desorganização, medo, insegurança, confusão. Produz-se uma marca na forma como essa criança passa a habitar o próprio corpo, os vínculos e, muitas vezes, a si mesma.

 

É por isso que certas experiências não desaparecem simplesmente com o tempo. Não porque o passado determine tudo, mas porque aquilo que foi vivido sem possibilidade de elaboração não some sozinho. O que não encontrou palavra, escuta e proteção pode permanecer como angústia, vergonha, medo, repetição, ou como uma dor que continua existindo mesmo quando ninguém mais a vê.

Nesse cenário, a escola ocupa um lugar muito importante.

Não porque deva responder sozinha por tudo. Não porque substitua a família, a rede de proteção ou o Estado. Mas porque, muitas vezes, é ali que algo começa a ser percebido. A escola vê o que a repetição mostra: a mudança brusca, o silêncio novo, as faltas recorrentes, a tristeza, o cansaço, a irritação, a queda no rendimento, a criança que parece distante, assustada ou atravessada por algo que ainda não consegue dizer. E, quando a escola olha de verdade, ela pode ser o lugar onde o sofrimento deixa de passar despercebido.

 

Isso não é pouco.

Às vezes, tudo começa quando um professor estranha o que os outros naturalizaram. Quando alguém percebe que não se trata apenas de “comportamento”, “fase” ou “dificuldade escolar”. Quando um profissional se recusa a banalizar aquilo que está machucando uma criança. Quando, pela primeira vez, alguém sustenta a pergunta certa: o que está acontecendo com ela?

 

Por isso, dizer que a escola é proteção não é força de expressão. É reconhecer que, muitas vezes, ela funciona como uma rede cotidiana de cuidado e de interrupção da violência.

 

E isso importa ainda mais quando olhamos para a realidade brasileira. Segundo o Censo Demográfico de 2022, divulgado pelo IBGE, mais de 34 mil crianças de 10 a 14 anos viviam em união conjugal no Brasil, e 77% delas eram meninas. A maioria desses casos ocorria em uniões consensuais, sem registro civil ou religioso. Entre essas crianças, cerca de 69% eram pretas ou pardas. Não estamos falando apenas de números. Estamos falando de infâncias interrompidas, atravessadas por desigualdade, silenciamento e violação.

Quando uma menina é colocada cedo demais no lugar de companheira, cuidadora ou mulher, não houve amadurecimento. Houve interrupção da infância. Houve captura. Houve violência. Chamar isso de escolha é ignorar o peso das desigualdades que sustentam essas trajetórias e apagar algo muito simples: crianças não deveriam ser empurradas para lugares que exigem delas aquilo que ainda estão tentando constituir em si.

 

E talvez seja isso que mais engasgue.

Uma criança deveria poder depender sem medo. Deveria poder brincar, aprender, se desenvolver, experimentar o mundo com a segurança de que há um adulto capaz de protegê-la do excesso. Quando, no lugar disso, ela encontra ameaça, invasão, abandono ou descuido, o que se quebra não é apenas uma fase da vida. Quebra-se algo da confiança mais primária. Algo que deveria servir de base para que ela pudesse existir sem precisar sobreviver o tempo todo.

 

No fundo, a violência contra crianças e adolescentes produz justamente isso: uma infância obrigada a aprender cedo demais àquilo que jamais deveria aprender. O medo. A hipervigilância. A vergonha. O silêncio. A solidão de sentir sem conseguir dizer. A necessidade de se adaptar ao intolerável para continuar existindo.

 

E nenhuma criança deveria precisar se adaptar ao intolerável.

Falar de violência, abuso e negligência é falar, portanto, do fracasso do cuidado. E não apenas de um fracasso individual ou familiar, mas também social. Porque toda vez que o sofrimento de uma criança é minimizado, relativizado ou tratado como detalhe, também falhamos como coletividade. Proteção não pode depender da sorte. Escuta não pode ser privilégio. Cuidado não pode chegar apenas depois do dano.

 

A escola pode ser uma das portas de interrupção desse circuito. Pode ser o espaço em que alguém olha, percebe, escuta e nomeia. Pode ser o lugar em que uma criança, mesmo sem conseguir contar tudo, deixa de estar completamente sozinha diante da própria dor. E isso, às vezes, já é o começo de algo muito importante: o começo do rompimento do silêncio.

 

Porque o mais grave na violência não é só o ato que fere.

É o silêncio que o protege.

É a naturalização que o sustenta.

É a indiferença que permite que uma criança siga sofrendo sem que ninguém se sinta chamado a interromper isso.

 

No fim, talvez seja disso que o texto trate: de lembrar que a infância não é território disponível para o abuso, para a negligência, para a omissão ou para o excesso de ninguém. E de afirmar, sem suavizar nada, que toda vez que uma criança perde o direito de existir com amparo, proteção e dignidade, não é só ela que foi ferida. É o laço humano que falhou.

Artigo escrito pela psicóloga Dra. Angélica Berres que utiliza a psicanálise como principal abordagem, oferece insights sobre como evitar e gerenciar a ansiedade no dia a dia.

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