/Diagnósticos de autismo crescem no Brasil e reforçam importância da identificação precoce, inclusão e informação de qualidade

Diagnósticos de autismo crescem no Brasil e reforçam importância da identificação precoce, inclusão e informação de qualidade

O número de diagnósticos de Transtorno do Espectro Autista (TEA) cresceu de forma expressiva no Brasil nos últimos anos. O tema ganhou ainda mais destaque após o Censo Demográfico de 2022, que, pela primeira vez, incluiu informações sobre pessoas com diagnóstico de autismo, revelando uma realidade que antes não aparecia nas estatísticas oficiais.

No entanto, esse aumento não significa, necessariamente, que existam mais pessoas autistas. Na avaliação da psicóloga Franciele de Oliveira, da equipe do Espaço Clínico TEAuxiliando, o cenário reflete principalmente o avanço do conhecimento científico, a ampliação do acesso aos serviços especializados e uma sociedade cada vez mais preparada para reconhecer o autismo.

Segundo a psicóloga Franciele, o país vive um momento importante de conscientização.

“O crescimento dos diagnósticos não significa, necessariamente, que existam mais pessoas autistas. O que observamos é um avanço significativo na identificação de pessoas que sempre estiveram entre nós, mas que, por diferentes motivos, não recebiam diagnóstico.”

O Censo de 2022 identificou aproximadamente 2,4 milhões de brasileiros com diagnóstico de TEA, o equivalente a cerca de 1,2% da população. Entretanto, esse número contempla apenas quem já possuía um diagnóstico formal.

“Muitas crianças, adolescentes e adultos ainda estavam em investigação e não foram contabilizados. É esperado que os próximos levantamentos apresentem um retrato ainda mais próximo da realidade brasileira.”

A psicóloga explica que a evolução dos critérios diagnósticos também contribuiu para esse cenário.

“Hoje compreendemos melhor a diversidade de apresentações do espectro. Perfis que antes passavam despercebidos, como mulheres, adultos e pessoas com maiores habilidades cognitivas, passaram a ser reconhecidos. Mais do que um aumento do autismo, estamos diante de uma maior capacidade de reconhecer e acolher pessoas que historicamente permaneceram invisíveis.”

Diagnóstico precoce faz diferença no desenvolvimento

O levantamento mostra que a maior parte dos diagnósticos ocorre nos primeiros anos de vida. Para o Espaço Clínico TEAuxiliando, essa identificação precoce representa uma oportunidade importante para o desenvolvimento infantil.

“A infância é um período de intensa neuroplasticidade, quando o cérebro apresenta maior capacidade de reorganização. Os primeiros cinco anos de vida representam uma verdadeira janela de oportunidades para intervenções baseadas em evidências, favorecendo o desenvolvimento da comunicação, da linguagem, da interação social, da autonomia e das habilidades adaptativas.”

Franciele reforça que o objetivo do diagnóstico não é modificar quem a criança é.

“O autismo não tem cura, porque não é uma doença. O diagnóstico serve para garantir acesso precoce aos apoios necessários, respeitando as características individuais e promovendo qualidade de vida. Além disso, beneficia toda a família, que passa a compreender melhor a criança e aprende estratégias para estimular seu desenvolvimento.”

Sinais podem passar despercebidos durante anos

Embora os diagnósticos infantis tenham aumentado, muitos adolescentes e adultos ainda descobrem o autismo apenas mais tarde. Segundo a equipe, isso acontece porque, durante muitos anos, o conhecimento sobre o TEA foi baseado principalmente em estudos com meninos que apresentavam características mais evidentes.

“Na infância, diversos sinais acabam sendo interpretados como timidez, personalidade ou simplesmente o jeito da criança. Dificuldades sutis na interação social, interesses muito específicos, necessidade intensa de rotina, hipersensibilidades sensoriais, dificuldades para compreender regras sociais implícitas e um grande desgaste após situações sociais são características que muitas vezes passam despercebidas.”

Por que meninas recebem menos diagnósticos?

Outro dado que chama atenção é o menor número de diagnósticos em meninas. Para os especialista do Espaço Clínico TEAuxiliando, um dos principais motivos é o chamado mascaramento social, conhecido internacionalmente como masking.

“Muitas meninas aprendem desde cedo a observar outras crianças e reproduzir seus comportamentos para parecer socialmente típicas. Elas decoram conversas, ensaiam expressões faciais, mantêm contato visual mesmo com desconforto, escondem movimentos repetitivos e estudam regras sociais como se fossem um manual.”

Apesar de favorecer uma adaptação aparente, esse esforço cobra um preço elevado. “O mascaramento está associado a altos índices de ansiedade, depressão, exaustão emocional, baixa autoestima e burnout autístico. Por isso, muitas mulheres só recebem o diagnóstico na adolescência ou até mesmo na vida adulta.”

O primeiro passo após o diagnóstico

Receber um diagnóstico costuma despertar medo, insegurança e inúmeras dúvidas nas famílias. Porém, segundo a psicóloga Franciele, informação de qualidade faz toda a diferença nesse momento.

“É natural que os pais sintam medo ou até vivenciem um processo de luto pelas expectativas construídas. Mas o diagnóstico não é uma sentença. Ele é uma ferramenta que permite compreender melhor a criança e oferecer os apoios necessários para que ela desenvolva todo o seu potencial.”

A orientação é buscar conhecimento em fontes confiáveis e evitar informações sem embasamento científico.

“Os pais não precisam ser perfeitos. Precisam ser responsivos, compreender as necessidades da criança e construir uma relação baseada em segurança, respeito e comunicação. Também é importante não comparar seu filho com outras crianças autistas. Cada pessoa apresenta habilidades, desafios e formas de aprender completamente diferentes.”

Mitos ainda alimentam o preconceito

Mesmo com o avanço das informações, diversos mitos continuam circulando sobre o autismo. No consultório, segundo a psicóloga, o principal deles é acreditar que todas as pessoas autistas são iguais.

“O próprio nome espectro demonstra que existem diferentes perfis e níveis de suporte. Há pessoas que precisam de apoio intenso durante toda a vida e outras que trabalham, constituem família e só descobrem o diagnóstico quando adultas.”

Outro equívoco recorrente é acreditar que pessoas autistas não demonstram afeto.

“Isso não corresponde à realidade. Muitas sentem emoções de forma intensa e desejam estabelecer vínculos. O que pode existir são diferenças na maneira como expressam essas emoções ou interpretam sinais sociais.”

Franciele também alerta para falsas crenças relacionadas às causas do transtorno.

“Autismo não é causado pela falta de limites, pela forma como os pais educam seus filhos nem pelo uso de telas. Trata-se de uma condição do neurodesenvolvimento com forte influência genética e múltiplos fatores biológicos. O excesso de telas pode prejudicar qualquer criança, mas não provoca autismo.”

Outro mito frequente é acreditar que toda pessoa autista possui inteligência extraordinária.

“Assim como acontece na população em geral, existe uma grande diversidade de habilidades. Algumas pessoas apresentam talentos específicos muito desenvolvidos, mas isso não representa a realidade de todos.”

Por fim, a psicóloga destaca que talvez o maior equívoco seja imaginar que o autismo precise ser combatido.

“O foco das boas práticas atuais não é mudar quem a pessoa é, mas reduzir barreiras, desenvolver habilidades, promover autonomia e garantir inclusão.”

Inclusão no mercado de trabalho ainda é desafio

A entrada e a permanência de pessoas autistas no mercado de trabalho ainda enfrentam obstáculos importantes. Para os profissionais do Espaço Clínico TEAuxiliando, muitas dessas dificuldades estão relacionadas ao ambiente e não à capacidade profissional.

“As empresas podem promover inclusão com mudanças relativamente simples, como processos seletivos mais acessíveis, entrevistas estruturadas, adaptação do ambiente sensorial, expectativas claras, comunicação objetiva e capacitação das lideranças.”

A psicóloga Franciele de Oliveira ressalta que contratar não basta.

“É necessário garantir condições para permanência e crescimento profissional. Muitas pessoas autistas deixam seus empregos não por falta de competência, mas pela sobrecarga sensorial, comunicação ambígua ou falta de compreensão dos colegas.”

Buscar avaliação é um ato de cuidado

Para pais, professores ou adultos que suspeitam de um possível Transtorno do Espectro Autista, a orientação é clara.

“Não ignore os sinais e não tenha medo de procurar uma avaliação especializada. Buscar um profissional não significa confirmar um diagnóstico. Significa buscar respostas.”

A psicóloga destaca que adiar essa investigação pode significar perder oportunidades importantes de intervenção, especialmente durante a infância.

“O diagnóstico não muda quem a pessoa é. A criança, o adolescente ou o adulto continua sendo exatamente o mesmo. O que muda é que, a partir desse conhecimento, é possível compreender melhor suas necessidades e oferecer os apoios adequados.”

A escola também exerce papel fundamental nesse processo.

“Muitas vezes são os professores os primeiros a perceber diferenças no desenvolvimento. Observar, acolher e conversar com a família de forma respeitosa pode fazer toda a diferença, sempre evitando rótulos ou diagnósticos precipitados.”

Para adolescentes e adultos, a mensagem também é de acolhimento.

“Nunca é tarde para buscar uma avaliação. Muitas pessoas relatam um grande alívio ao compreender sua própria história. O diagnóstico não limita ninguém; ele promove autoconhecimento, acesso a direitos e estratégias que favorecem uma vida com mais qualidade.”

Ao final, a psicóloga Franciele de Oliveira, que comanda a equipe da clínica do Espaço Clínico TEAuxiliando reforça uma mensagem considerada essencial.

“O autismo não define uma pessoa. Ele é apenas uma das características que compõem quem ela é. Quando substituímos o preconceito pelo conhecimento e o julgamento pela compreensão, abrimos espaço para que pessoas autistas desenvolvam seus talentos, exerçam sua autonomia e participem plenamente da sociedade. A inclusão começa com informação, respeito e oportunidades.”


O Espaço TEAuxiliando atende as especialidades: Psicóloga, Intervenção ABA para o Transtorno do Espectro Autista, Neuropsicológa, Psicopedagoga, Psicomotricista, Psiquiatra e Clínico Geral.
O Espçao fica localizado na rua Santos Anjos, nº 181 no centro de General Carneiro.
Instagram: @teauxiliando/