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O medo já entrou em casa: os efeitos psíquicos da ameaça de novas enchentes

Antes mesmo de a água subir, o medo já começou a entrar nas casas de muitos moradores de União da Vitória e Porto União. As notícias sobre o El Niño, a possibilidade de chuvas intensas e a lembrança das enchentes anteriores têm provocado insegurança, ansiedade e mudanças concretas na vida da população.

Há pessoas pensando em deixar suas casas, colocando imóveis à venda, adiando reformas e desistindo de investimentos. Outras acompanham diariamente a previsão do tempo, o nível do Rio Iguaçu e qualquer informação que possa indicar uma nova cheia. Também já existem relatos de crises de ansiedade e de pânico relacionadas ao medo de uma nova enchente.

Para quem vive nas cidades gêmeas, falar sobre chuva forte não é falar apenas sobre o clima. É falar sobre aquilo que já foi perdido, sobre o medo de perder novamente e sobre a insegurança de não saber o que acontecerá nos próximos meses.

As enchentes fazem parte da história de União da Vitória e Porto União. Muitas famílias já tiveram suas casas atingidas, perderam móveis, documentos, roupas, alimentos e objetos construídos ao longo de anos. Outras precisaram deixar suas residências, procurar abrigo ou depender da ajuda de familiares e da comunidade.

Mesmo quem não teve a própria casa atingida pode ter sido afetado de diferentes formas. Há pessoas que ajudaram parentes durante a retirada, receberam famílias em suas residências, acompanharam amigos perdendo seus bens ou passaram noites observando o rio subir. Quando uma cidade inteira vive repetidamente esse tipo de situação, a enchente deixa de ser apenas uma experiência individual. Ela passa a fazer parte da memória coletiva da população.

É por isso que o medo atual não pode ser tratado como exagero ou pessimismo. Esse medo tem uma história. Ele não aparece apenas por causa de uma notícia ou de uma previsão climática, mas também pelo que já foi vivido e pelo receio de que tudo volte a acontecer.

Freud compreendia a angústia como um sinal diante de uma situação de perigo. Em certa medida, ela prepara a pessoa para reagir e se proteger. O problema aparece quando o risco começa a ocupar toda a vida psíquica, mesmo antes de qualquer situação concreta acontecer.

Psicóloga Dra. Angélica Berres – professora no curso de Direito da Unespar e perita judicial.

A pessoa passa a dormir mal, pensar constantemente no pior, observar qualquer mudança no tempo e interpretar toda chuva como sinal de que uma nova tragédia está próxima. Podem surgir palpitações, falta de ar, tremores, aperto no peito, irritabilidade, dificuldade de concentração e crises de pânico.

O medo também começa a interferir nas decisões da vida. A família deixa de investir na própria casa, pensa em mudar de bairro, suspende compras e começa a questionar se ainda vale a pena permanecer naquele lugar. Aos poucos, a ameaça da enchente passa a organizar a rotina, as escolhas e os planos para o futuro.

É importante diferenciar prevenção de antecipação da tragédia. Organizar documentos, acompanhar informações oficiais, conhecer as rotas de saída e pensar em medidas de segurança são atitudes necessárias. Diferente disso é viver todos os dias como se a água já estivesse entrando em casa.

Para a psicanálise, a casa não representa apenas uma construção ou um bem material. Ela pode ser o lugar da segurança, da história familiar, da intimidade e do pertencimento. Quando alguém teme perder a casa, pode estar temendo também perder uma parte da própria história.

Por isso, dizer apenas “não precisa ter medo” ou “não vai acontecer nada” dificilmente resolve. A pessoa precisa encontrar espaço para falar sobre aquilo que viveu, sobre o que imagina e sobre o que teme perder.

Dar lugar à palavra não significa aumentar o medo, mas permitir que ele seja elaborado. Quando a pessoa não consegue falar sobre aquilo que está sentindo, a angústia pode aparecer de outras formas: no corpo, na insônia, em uma crise de pânico ou até em decisões tomadas no auge do medo.

A escuta pode ajudá-la a separar o que realmente está acontecendo naquele momento daquilo que já viveu e do que imagina que ainda poderá acontecer. Isso não significa negar o risco, mas impedir que o medo tome conta de tudo.

Também não é possível colocar sobre cada morador a responsabilidade de administrar sozinho esse sofrimento. A saúde psíquica da população também depende da confiança nas instituições, da existência de informações claras e da presença de respostas públicas concretas.

União da Vitória possui um histórico conhecido de áreas atingidas por enchentes e instrumentos de planejamento para situações de emergência. Mas, diante da preocupação atual da população, é necessário perguntar: o que está sendo feito de forma preventiva?

Como serão emitidos os alertas? Existem locais suficientes para acolher as famílias? Há estrutura para atender pessoas idosas, crianças e pessoas com dificuldade de locomoção? Existem equipes preparadas para atender situações de sofrimento psíquico? O que está sendo feito nos bairros historicamente atingidos?

Essas perguntas não devem ser vistas como alarmismo. São perguntas legítimas de uma população que já viveu perdas e precisa saber quais medidas estão sendo tomadas antes de uma nova emergência.

Em ano eleitoral, a discussão sobre enchentes também precisa sair das promessas e aparecer nas ações. Não basta visitar bairros atingidos depois que a água já entrou nas casas. É necessário investir em prevenção, planejamento urbano, comunicação, estrutura de atendimento e acompanhamento das famílias que vivem constantemente sob ameaça.

A saúde mental também precisa fazer parte dos planos de prevenção. Não basta organizar abrigos, colchões e locais para a retirada de móveis. É necessário pensar em quem ficará responsável pelo acolhimento das pessoas antes, durante e depois de uma possível enchente.

Crianças podem apresentar medo de dormir sozinhas, voltar a fazer xixi na cama, ter pesadelos ou se assustar sempre que começa a chover. Adultos podem apresentar insônia, irritabilidade, crises de ansiedade e dificuldade de trabalhar. Pessoas idosas podem se recusar a deixar suas casas por medo de perder objetos, documentos e referências construídas durante toda a vida.

Essas reações não devem ser tratadas como fraqueza. Elas mostram como cada pessoa tenta lidar com uma situação que ameaça sua segurança e aquilo que lhe serve de apoio.

Outro ponto importante é o cuidado com as informações que circulam. Vídeos antigos, mensagens alarmistas, áudios sem identificação e previsões sem fonte aumentam a ansiedade coletiva. Em cidades marcadas por enchentes, um boato pode produzir efeitos concretos.

Pode levar pessoas a vender imóveis às pressas, deixar de investir, abandonar projetos ou viver em estado permanente de alerta. Por outro lado, esconder informações ou minimizar os riscos também aumenta o desamparo.

A população precisa receber informações claras, frequentes e responsáveis. Precisa saber qual é a situação real, quais medidas estão sendo tomadas e onde procurar ajuda.

Para a psicanálise, o objetivo não é eliminar completamente o medo. O medo também pode proteger e levar a pessoa a se preparar. O problema aparece quando ele impede a pessoa de dormir, trabalhar, fazer planos e continuar vivendo.

Escutar esse sofrimento é permitir que o medo deixe de aparecer apenas no corpo e encontre palavras. Mas também é reconhecer que nem todo sofrimento pode ser resolvido em um atendimento individual.

Há sofrimentos que aumentam quando faltam políticas públicas, planejamento, proteção social e respostas concretas.

Freud utilizou a ideia de desamparo para mostrar que o ser humano não consegue enfrentar sozinho todas as ameaças da vida. Diante de uma possível enchente, esse desamparo se torna ainda mais evidente. Uma pessoa sozinha não consegue conter a água, proteger a casa, garantir a segurança da família e ainda controlar o próprio medo.

É justamente nesse momento que a presença do outro, da comunidade e das instituições se torna fundamental. A informação, o planejamento, o cuidado e a responsabilidade pública não eliminam completamente o medo, mas impedem que cada morador tenha de enfrentá-lo sozinho.

Nas cidades gêmeas, a chuva ainda nem chegou com a intensidade temida, mas o medo já começou a produzir efeitos. Ele aparece nas casas colocadas à venda, nos investimentos suspensos, nas noites mal dormidas e nas pessoas que observam o céu e o rio tentando antecipar o que ainda não aconteceu.

Esse medo precisa ser escutado, mas também precisa ser respondido.

Não apenas com promessas, nem somente com alertas emitidos quando o risco já é imediato, mas com ações que mostrem à população que existe planejamento, preparo e responsabilidade.

Porque cuidar da saúde psíquica diante de uma possível enchente não significa apenas ensinar as pessoas a controlar a ansiedade. Significa também oferecer condições para que elas possam se preparar, continuar vivendo e confiar que não estarão sozinhas caso o risco se torne realidade.

Artigo escrito pela psicóloga Dra. Angélica Berres – professora no curso de Direito da Unespar e perita judicial.

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