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Dia da Infância: ser criança era melhor antigamente? Especialistas explicam como a infância mudou

Tecnologia, rotina mais intensa e novas formas de aprendizagem transformaram a maneira de viver a infância, mas especialistas destacam que brincar, conviver e criar vínculos continuam essenciais.

Crianças brincando na rua até o anoitecer, inventando jogos com os amigos da vizinhança e passando horas longe das telas. Para muita gente, essa é a imagem de uma infância que ficou no passado e que desperta a pergunta: ser criança era melhor antigamente?

No Dia da Infância, celebrado nesta segunda-feira (24), especialistas em educação e desenvolvimento infantil mostram que a resposta não é tão simples. Mais do que comparar gerações, a discussão passa por entender como as mudanças sociais, o avanço da tecnologia e as novas rotinas familiares transformaram a experiência de ser criança.

Se antigamente havia mais oportunidades para brincar livremente nas ruas e explorar os espaços do bairro, hoje as crianças têm acesso a tecnologias, informações e diferentes formas de aprendizagem desde muito cedo. Ao mesmo tempo, enfrentam desafios como excesso de telas, agendas mais cheias e menor convivência espontânea com outras crianças.

Para Renata Alonso, coordenadora pedagógica da Escola Bilíngue Aubrick, em São Paulo, é natural que adultos tenham uma visão nostálgica da própria infância. “É verdade que muitas crianças têm hoje menos oportunidades de brincar na rua, explorar espaços ao ar livre e conviver espontaneamente com outras crianças, experiências que são muito importantes para desenvolver criatividade, autonomia e aprender a lidar com desafios do dia a dia. Por outro lado, elas também crescem com mais acesso à informação, novas formas de aprender, tecnologias que podem enriquecer o ensino e maior contato com diferentes culturas e realidades”, explica.

Segundo Renata, a questão não deve ser definir qual geração teve a melhor infância. Cada período apresenta oportunidades e desafios diferentes. “O mais importante é garantir que as crianças tenham tempo para brincar, conviver, descobrir o mundo, criar vínculos e experimentar diferentes vivências”, destaca.

Rotina cheia nem sempre significa uma infância mais completa

Outro aspecto que mudou nos últimos anos é a rotina das crianças. Muitas passam boa parte do dia na escola e, depois, participam de atividades como idiomas, esportes, música e outras propostas culturais.

Essas experiências podem contribuir para o desenvolvimento, mas precisam ser organizadas com equilíbrio.

Para Beatriz Martins, coordenadora pedagógica do Brazilian International School (BIS), o principal ponto não é simplesmente quantas horas a criança passa na escola ou quantas atividades realiza, mas a qualidade dessas experiências.

“Uma rotina ampliada pode ser muito positiva quando alterna momentos de aprendizagem, brincadeira livre, movimento, descanso, interação e escolhas. A criança precisa participar de experiências significativas, mas também precisa ter tempo para brincar, imaginar e construir suas próprias descobertas”, afirma.

A especialista ressalta ainda que não existe uma rotina ideal que funcione da mesma maneira para todas as crianças. É importante observar sinais de interesse, bem-estar e disposição.

Atividades extracurriculares podem enriquecer a formação, desde que respeitem o ritmo da infância e não eliminem momentos fundamentais de descanso, brincadeira e convivência familiar.

Telas mudaram a forma de brincar

Entre as principais diferenças entre a infância atual e a de décadas passadas está a presença da tecnologia.

Celulares, tablets, computadores e outros dispositivos fazem parte da rotina das famílias e também podem ser ferramentas importantes para educação e aprendizagem. O problema, segundo especialistas, aparece quando o tempo de tela começa a substituir experiências essenciais para o desenvolvimento.

Para Carla Litrenta Todaro, psicopedagoga e educadora parental da Escola Internacional de Alphaville, a tecnologia não precisa ser tratada como inimiga. “Celulares, tablets e computadores são ferramentas importantes e fazem parte da forma como as crianças aprendem e se comunicam. O problema surge quando o tempo de tela passa a substituir momentos essenciais para o desenvolvimento, como brincar livremente, praticar atividades físicas, conversar presencialmente, lidar com frustrações, explorar a criatividade e construir relações no mundo real”, explica.

De acordo com Carla, habilidades como empatia, autocontrole, comunicação e capacidade de resolver conflitos são desenvolvidas principalmente por meio das relações presenciais.

Por isso, a orientação é buscar equilíbrio: estabelecer horários para os dispositivos, evitar telas durante as refeições e antes de dormir, incentivar atividades ao ar livre e preservar momentos de convivência em família.

O que não pode faltar em uma infância saudável?

Para Michele Diniz, coordenadora da Educação Infantil do Colégio Progresso Bilíngue, de Vinhedo (SP), a infância não deve ser encarada apenas como uma preparação para a vida adulta.

É uma etapa com valor próprio, na qual as experiências vividas ajudam a construir a maneira como a pessoa irá se relacionar consigo mesma, com os outros e com o mundo. “Mais do que formar adultos bem-sucedidos, precisamos garantir que as crianças tenham o direito de viver plenamente a infância, brincar, experimentar, errar, aprender e crescer em um ambiente onde se sintam amadas, seguras e livres para serem quem são”, afirma.

Entre os elementos considerados fundamentais estão o brincar, os vínculos afetivos, a atividade física, a exploração do mundo, relações de qualidade e a presença de adultos de confiança.

Outro ponto destacado pela especialista é a importância da escuta. “As crianças precisam sentir que são respeitadas, acolhidas e levadas a sério. Quando percebem que podem conversar sem medo de julgamentos, fazer perguntas, expressar emoções, admitir que erraram e pedir ajuda, desenvolvem confiança para enfrentar desafios e construir uma autoestima saudável”, ressalta Michele.

Afinal, a infância era melhor antigamente?

A nostalgia das brincadeiras de rua, dos encontros entre vizinhos e das horas longe do celular faz parte da memória de muitas gerações. Mas, para os especialistas, comparar o passado e o presente como se fosse uma disputa não ajuda a compreender o que as crianças precisam hoje.

A infância mudou — e continuará mudando conforme a sociedade se transforma. O desafio atual é aproveitar os benefícios das novas tecnologias e das diferentes oportunidades de aprendizagem sem deixar de lado aquilo que continua essencial: brincar, movimentar-se, conviver, criar vínculos, explorar, imaginar, aprender com os erros e ter tempo para simplesmente ser criança.

No fim das contas, talvez a pergunta mais importante não seja se a infância de antigamente era melhor, mas se as crianças de hoje estão tendo espaço suficiente para viver uma infância saudável e feliz.