Dono de boate, pai dele e segurança estão entre os cinco denunciados pelo Ministério Público Federal; investigação começou na Delegacia da Mulher de União da Vitória

Uma investigação que começou na Delegacia da Mulher de União da Vitória e ganhou repercussão com a Operação Labareda, deflagrada em fevereiro deste ano, teve um novo e importante capítulo nesta quarta-feira (2).
O Ministério Público Federal (MPF) denunciou cinco pessoas acusadas de integrar uma organização criminosa envolvida com tráfico internacional de pessoas, exploração sexual e submissão de trabalhadoras a condições análogas às de escravo. Segundo a denúncia, mulheres eram recrutadas no Paraguai com falsas promessas de trabalho e levadas para uma casa noturna em União da Vitória, onde acabavam submetidas a um sistema de controle que dificultava a saída do local.
Entre os cinco denunciados estão o proprietário da boate, o pai dele e um segurança do estabelecimento, além de outras duas pessoas apontadas na investigação.
A denúncia foi recebida pela Justiça Federal do Paraná, dando início à ação penal. Isso significa que os cinco passaram a responder formalmente ao processo, mas ainda não foram condenados. O caso tramita em sigilo para preservar a identidade e a segurança das vítimas.
Investigação começou em União da Vitória
Antes de chegar à Justiça Federal, o caso foi investigado pela Delegacia da Mulher de União da Vitória, sob responsabilidade da delegada Nielly Mendes.

A apuração levou à deflagração da Operação Labareda, em 3 de fevereiro de 2026. Na época, a Polícia Civil informou que investigava um esquema de exploração sexual ligado a uma casa noturna que vinha sendo monitorada pelas autoridades.
A operação contou com apoio do 27º Batalhão da Polícia Militar, TIGRE, DENARC, Polícia Científica e Grupo FERA. Foram cumpridos cinco mandados de prisão e quatro mandados de busca e apreensão, com todos os alvos localizados. Quase 100 objetos também foram apreendidos durante a ação.
O nome da operação, segundo a investigação divulgada na época, fazia referência ao fogo, que teria sido utilizado como um dos modos de atuação do grupo.
Mulheres eram atraídas com falsas promessas
Conforme a denúncia apresentada agora pelo MPF, as vítimas eram recrutadas no Paraguai com promessas de trabalho no Brasil.
Depois de chegarem a União da Vitória, porém, a situação seria diferente daquela apresentada inicialmente. As mulheres passavam a ser submetidas à exploração sexual e tinham a liberdade restringida por meio de dívidas, cobranças e multas.
Segundo o MPF, as multas variavam de R$ 500 a R$ 5 mil e poderiam ser aplicadas por situações como recusa de atendimentos, desorganização, discussões ou até mesmo pela intenção de deixar o estabelecimento.
Os valores seriam registrados em cadernos utilizados para controlar as dívidas. Na avaliação do Ministério Público, esse mecanismo tinha justamente o objetivo de dificultar que as vítimas conseguissem deixar o esquema.
Seis mulheres foram encontradas durante a operação
Quando a Operação Labareda foi realizada, seis mulheres foram localizadas dentro do estabelecimento investigado.
Na época, a Polícia Civil informou que cinco delas eram estrangeiras e uma brasileira. As mulheres receberam atendimento e foram encaminhadas para suporte da assistência social.
A operação representou, naquele momento, um dos principais avanços da investigação que vinha sendo conduzida pela Delegacia da Mulher de União da Vitória.
Fuga teria provocado reação violenta
A nova denúncia do MPF também revela episódios de violência que teriam ocorrido após uma das mulheres conseguir fugir.
Segundo o órgão, integrantes do grupo teriam sequestrado uma das vítimas com o objetivo de intimidá-la e impedir que ela colaborasse com as investigações.
A mulher conseguiu escapar ao se jogar de um veículo em movimento em uma via pública. Ainda conforme a denúncia, familiares dela que permaneciam no exterior também teriam recebido mensagens de teor intimidatório.
Incêndio teria sido usado para tentar matar testemunhas
Outro episódio apontado pelo MPF envolve um incêndio em uma casa noturna.
Segundo a denúncia, o fogo teria sido provocado de forma planejada enquanto duas testemunhas dormiam no local. A suspeita é de que a ação tinha como objetivo provocar a morte das duas pessoas.
As testemunhas conseguiram escapar antes que o incêndio tivesse consequências fatais.
O Ministério Público afirma que a denúncia foi construída a partir de laudos periciais, análises telefônicas e registros de videomonitoramento.
Nove crimes são apontados na denúncia
Além do tráfico internacional de pessoas e da submissão de trabalhadores a condições análogas às de escravo, o MPF pede a condenação dos cinco denunciados por outros crimes.
Entre eles estão:
- organização criminosa transnacional armada;
- tráfico internacional de pessoas;
- submissão de trabalhadores a condições análogas às de escravo;
- rufianismo;
- manutenção de casa de prostituição;
- sequestro;
- lesão corporal;
- roubo;
- tentativa de homicídio qualificado.
O MPF também pediu que os acusados sejam obrigados a reparar os danos materiais e morais causados às vítimas.
Caso segue na Justiça Federal
Com o recebimento da denúncia, o caso passa agora a tramitar como ação penal na Justiça Federal do Paraná.
A investigação que começou em União da Vitória, conduzida inicialmente pela Delegacia da Mulher e que resultou na Operação Labareda, ganhou uma dimensão ainda maior com a apuração federal sobre possível tráfico internacional de pessoas.
O processo permanece em sigilo para preservar a intimidade e a segurança das mulheres envolvidas.
Importante: os cinco denunciados terão direito à ampla defesa e ao contraditório. A denúncia do Ministério Público representa uma acusação formal e não significa, neste momento, que os envolvidos tenham sido condenados pelos crimes apontados.












