Quando a adoção encontra palavra, também encontra caminho
Há iniciativas que nascem de um interesse acadêmico, mas, em algum momento, deixam de pertencer apenas a esse lugar.
Foi assim com o Grupo de Apoio à Adoção Gêmeas do Iguaçu. O que começou como uma inquietação ligada ao estudo e à reflexão sobre a adoção logo revelou uma necessidade muito mais concreta: a de criar, em nossas comarcas de União da Vitória/PR e Porto União/SC, um espaço de escuta, orientação e troca sobre um tema que mobiliza afetos profundos, expectativas intensas e, não raras vezes, silêncios difíceis de sustentar.
Quando a real importância do grupo para a nossa região se tornou evidente, ficou claro que ele precisava permanecer.
Nosso primeiro encontro aconteceu em 17 de setembro de 2016, na Universidade do Contestado (UNC), espaço em que essa trajetória começou a ganhar forma. Para abrir esse caminho, o tema escolhido foi a importância dos grupos de apoio à adoção, e contamos com a presença do juiz da Comarca de Porto União, Dr. Osvaldo Alves do Amaral, como convidado especial. O segundo encontro, em 15 de outubro de 2016, teve como tema “Aspectos Psicológicos da Adoção”, com a participação das psicólogas judiciárias Audrei Letícia Martins Rissi e Helen Vaz Zoraski, da Vara da Infância e Juventude e Anexos da Comarca de União da Vitória. No terceiro encontro, realizado em 19 de novembro de 2016, a discussão se voltou para “Adoção tardia e adoção de grupos de irmãos”, com a professora e psicóloga Cristiane Lampe Holovaty, que acompanhava essa construção naquele momento. Por fim, no dia 17 de dezembro de 2016, o quarto encontro abriu espaço para aquilo que nenhuma teoria substitui: a experiência viva de um casal de pais adotivos, sob o tema “Experiências com pais adotivos”.
Esses primeiros encontros já anunciavam algo importante: a adoção precisava ser pensada de forma ampla, responsável e sensível. Não apenas como procedimento jurídico, não
apenas como idealização afetiva, mas como experiência humana profunda, atravessada por desejo, medo, espera, elaboração e vínculo.
Os encontros seguiram sendo realizados ano após ano. Ao longo dessa trajetória, o grupo contou com a presença de diversos profissionais convidados — psicólogos, assistentes sociais, operadores do Direito e pais adotivos —, além de nomes de destaque na área da adoção, como Renata Pauliv, psicóloga reconhecida nacionalmente por sua atuação nesse campo. Muitos temas foram abordados. Houve muita conversa boa. Houve escuta. Houve orientação. Houve também ansiedade, expectativa, dúvidas e aquele aperto no coração que costuma acompanhar quem espera, quem deseja, quem se prepara e, muitas vezes, quem ainda tenta compreender se está pronto para ocupar esse lugar.
E é justamente aí que grupos como esse se tornam tão necessários.
Porque eles não oferecem apenas informação. Oferecem espaço para elaboração. E ser escutado, nesse campo, transforma muito. Transforma porque permite que o medo deixe de ser vivido em silêncio. Porque desloca a adoção de um lugar romantizado e a recoloca em sua densidade real. Porque ajuda pretendentes e famílias a sustentarem perguntas difíceis, revisarem expectativas, enfrentarem fantasias e compreenderem que o vínculo não nasce da idealização, mas da possibilidade de construir pertencimento com verdade, responsabilidade e tempo.
Ao longo dos anos, o grupo passou por diferentes espaços. Inicialmente, os encontros ocorreram na UNC; depois, nas dependências da Vara da Infância e Juventude de União da Vitória; mais tarde, na UNESPAR; e hoje permanecem junto à VIJ em União da Vitória. Os encontros eram realizados mensalmente, e já não é possível dizer com exatidão quantos pais, pretendentes e interessados passaram por ali. Foram inúmeros. E talvez nem seja possível medir exatamente a importância de um trabalho assim em números. Certos espaços deixam marcas que escapam à contagem. Permanecem na memória, na elaboração de quem participou, no modo como ajudam a sustentar trajetórias menos solitárias.
Também houve parcerias com a Vara da Infância e Juventude e com o Ministério Público de União da Vitória em ações realizadas em datas como Páscoa, Dia das Crianças e Natal. Em uma dessas ocasiões, foi possível realizar uma festa de Dia das Crianças para um abrigo, com autorização da coordenação à época e com todos os membros previamente orientados, justamente para evitar qualquer situação que pudesse ultrapassar os limites éticos necessários nesse contexto.
Durante o período mais intenso da pandemia, os encontros precisaram ser interrompidos. Houve uma pausa. Como em tantos outros espaços coletivos, o silêncio ocupou temporariamente o lugar da presença. Mas o grupo retornou algum tempo depois, porque aquilo que responde a uma necessidade real pode até ser suspenso pelas circunstâncias, mas dificilmente perde seu sentido.
Talvez esse seja o ponto mais forte dessa trajetória: o Gêmeas do Iguaçu permaneceu porque era necessário. Permaneceu porque a adoção, quando tratada com seriedade, pede mais do que trâmites. Pede escuta. Pede preparo. Pede rede. Pede responsabilidade emocional e social. Pede espaços em que se possa falar não apenas sobre a chegada de uma criança, mas sobre tudo aquilo que precisa ser elaborado para que essa chegada encontre, de fato, um lugar possível.
Essa permanência, ao longo dos anos, também encontrou ressonância em outras trajetórias atravessadas pela adoção. Também na trajetória de Emanueli, a adoção surgiu ainda durante a graduação em Psicologia como um tema marcado por escuta, espera e construção de sentidos. Em sua pesquisa, apareceu com força a importância de um lugar para conversar com outros pais que compartilham da mesma espera.
Foi a partir dessa escuta que o grupo criado em 2016 também pôde recriar caminhos, acolhendo novas histórias — histórias que têm como questão central a adoção de um filho, mas que também revelam, nas entrelinhas, as singularidades de cada percurso, enlaçadas ao desejo de constituir uma família com o afeto dado e recebido de um filho.
Dessa forma, durante os encontros, o grupo passou a ganhar, simbolicamente, o sentido de uma gestação fora do corpo. Uma gestação que não segue o tempo biológico e não deixa marcas físicas evidentes, mas que, com o advento da palavra, possibilita maneiras de nomear o que a adoção significa para cada um. E, mesmo que essa significação seja única, entrar na função materna ou paterna exige, independentemente da via pela qual esse filho chegue, que ele seja adotado por essa família.
E, como a família continua sendo o meio inicial para a organização de um sujeito diante das demandas da vida, entende-se aqui que família é aquela que, para além da relação judicial ora determinada, sustenta o cuidado e se estabelece pelo vínculo do afeto. Na psicanálise, por exemplo, a família pode ser compreendida como um grupo natural unido pela relação biológica, mas não apenas por ela, pois se mantém pelo desenvolvimento das crianças e se sustenta pela função assegurada pelos adultos.
Quando se fala em função, fala-se sobre o desejo de pais em assumir o cuidado, independentemente de como o vínculo ocorreu. Ou seja, em uma família, as instâncias culturais dominam as naturais; sendo assim, na função materna e paterna, gerar uma criança não basta: é necessário desejá-la.
O enunciado do desejo de um filho fala aqui sobre o indispensável para que uma criança se constitua, o que não acontece sem uma função assegurada pelo cuidado, pela transmissão da linguagem, pela proteção, pela condução de limites, pela educação e pelo afeto — e em nada disso há a exigência da consanguinidade.
Apesar da compreensão do Judiciário em estabelecer diretrizes a fim de realizar adoções seguras, essas medidas nem sempre abrangem trabalhos direcionados à subjetividade da escolha de cada postulante à adoção. Diante disso, entende-se, com a criação do grupo de apoio, que a adoção é atravessada por processos jurídicos e emocionais, mas nem sempre este último é considerado e acolhido, o que, por sua vez, pode repercutir negativamente na escolha de adotar dos postulantes.
Com esse propósito, o grupo foi sendo desenvolvido para postulantes, focando em aspectos acolhedores de escuta para além do ambiente jurídico, propiciando o enfrentamento e a elaboração das angústias que permeiam a escolha pelo filho adotivo.
A realização de grupos de apoio, como aposta para adoções bem-sucedidas, fundamenta-se também no que a psicanálise coloca como necessário para a ressignificação daquilo que angustia: o falar livremente.
Reflete-se que, para além do importante resultado reflexivo que o grupo tem propiciado aos postulantes, ele também vem reunindo resultados significativos do ponto de vista do Judiciário, que, ao compreender a importância do projeto, criou internamente à própria comarca de União da Vitória/PR uma portaria solicitando aos postulantes a participação em grupos de apoio. Uma decisão que demonstra sensibilidade e responsabilidade com a causa da adoção.
Por fim, entende-se que este projeto, que se aproxima de seus dez anos de existência, oferece, para além da disseminação de uma cultura da adoção, um espaço de fala e escuta daquilo que nos afeta e nos dá sentido: a família.
Artigo escrito pela psicóloga Dra. Angélica Berres, professora no curso de Direito da Unespar e perita judicial. Dra. Angélica utiliza a psicanálise como principal abordagem, oferece insights sobre como evitar e gerenciar a ansiedade no dia a dia. Atendimento On-line Horários: das 9h às 19h Telefone/WhatsApp: (42) 98403-6872 Rede Social: @psicologaangelicaberres
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Dra. Angélica utiliza a psicanálise como principal abordagem, oferece insights sobre como evitar e gerenciar a ansiedade no dia a dia.
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