O Dia dos Namorados costuma chegar acompanhado de flores, jantares, declarações, presentes e postagens nas redes sociais. Para muitos, é uma data de celebração. Para outros, no entanto, pode ser também um dia de desconforto, comparação, cobrança e solidão.

Em tempos de comunicação instantânea, nunca tivemos tantas formas de contato. Mensagens chegam em segundos, fotos são compartilhadas em tempo real, aplicativos aproximam pessoas que talvez nunca se encontrassem. Ainda assim, paradoxalmente, muitas pessoas se sentem cada vez mais distantes, inseguras e solitárias.
A questão talvez não seja a falta de meios para se conectar, mas a dificuldade de construir vínculos que sustentem presença, escuta, diferença e permanência.
Vivemos em uma época marcada pela ansiedade. Queremos respostas rápidas, relações leves, certezas imediatas e garantias afetivas que, na verdade, nenhuma relação humana pode oferecer plenamente. O amor, porém, não funciona na mesma lógica da velocidade. Amar exige tempo. Exige suportar o intervalo entre uma mensagem e outra, entre o desejo de estar junto e a necessidade de preservar a própria individualidade, entre o que esperamos do outro e aquilo que o outro realmente pode oferecer.
Talvez por isso tantas pessoas vivam em busca de um amor ideal. Um amor sem conflito, sem falta, sem frustração. Um parceiro perfeito, sempre disponível, sempre compreensivo, sempre ajustado às expectativas. No entanto, essa busca pelo “ser perfeito” pode se transformar em uma forma de sofrimento, porque quanto mais idealizamos o outro, menos conseguimos encontrá-lo como ele é.

Na psicanálise, a falta ocupa um lugar importante na constituição do sujeito. Não somos completos, e é justamente por isso que desejamos, buscamos, criamos laços e nos movimentamos em direção ao outro. O problema começa quando tentamos fazer do amor uma promessa de completude absoluta, como se uma relação pudesse eliminar todas as angústias, inseguranças e vazios da vida.
O amor pode acolher, mas não pode resolver tudo. Pode acompanhar, mas não pode substituir o trabalho que cada sujeito precisa fazer consigo mesmo. Pode ser encontro, mas não deve ser apagamento de si.
Nesse sentido, a solidão também merece ser pensada com mais cuidado. Estar só não significa necessariamente estar abandonado. Há uma solidão que dói, especialmente quando vem acompanhada de desamparo, rejeição ou ausência de vínculos significativos. Mas há também uma solidão necessária, aquela que permite ao sujeito se escutar, reconhecer seus desejos, perceber seus limites e não aceitar qualquer relação apenas para fugir do vazio.
Saber ficar só é diferente de desejar viver isolado. É poder reconhecer que o outro é importante, mas que ele não deve carregar a tarefa impossível de preencher todos os vazios da nossa existência. Quando não suportamos minimamente a falta, corremos o risco de transformar o amor em dependência, controle, cobrança ou desespero.
Para quem não está em um relacionamento, o Dia dos Namorados pode intensificar a sensação de inadequação, como se estar solteiro fosse sinônimo de fracasso. Mas não é. Não ter namorado ou namorada não significa estar fora do amor, nem transformar a solidão em fracasso. Muitas vezes, pode significar um tempo de reorganização, de cuidado consigo, de escolha mais consciente sobre o que se deseja construir.
Há também um incômodo silencioso que pode aparecer nessa data: olhar para as declarações alheias e se perguntar por que o amor, às vezes, parece tão simples para os outros e tão difícil para si. É o incômodo de quem espera uma mensagem que não chega, de quem se cansa de começar de novo, de quem gostaria apenas de se sentir escolhido de forma verdadeira. Esse sentimento não precisa ser ridicularizado nem transformado em desespero. Ele fala de algo profundamente humano: o desejo de ser visto, amado e reconhecido.

Também é importante lembrar que estar em um relacionamento não garante, por si só, a ausência de solidão. Há pessoas acompanhadas que se sentem profundamente sozinhas. Há casais que dividem a casa, a rotina e as fotos, mas já não dividem a escuta, o afeto e a presença. A solidão mais difícil talvez seja justamente aquela vivida dentro de relações em que não há espaço para falar, sentir ou existir de modo verdadeiro.
O amor, em tempos de ansiedade, nos convoca a desacelerar. A sair da lógica da performance afetiva, em que tudo precisa ser exibido, provado e validado. Amar não é apenas postar uma foto bonita ou receber uma declaração pública. Amar também aparece nos gestos discretos, na responsabilidade afetiva, na capacidade de escutar, de reconhecer o outro em sua diferença e de sustentar o vínculo mesmo quando ele não corresponde ao ideal imaginado.
Isso não significa romantizar relações difíceis ou marcadas por sofrimento constante. Pelo contrário. Amar também exige reconhecer quando uma relação deixa de ser espaço de cuidado e passa a produzir diminuição, controle ou apagamento de si. Nem toda permanência é prova de amor. Às vezes, o gesto mais amoroso consigo mesmo é perceber que é preciso sair.
Neste Dia dos Namorados, talvez a pergunta mais importante não seja apenas “tenho alguém?”, mas “como tenho me relacionado?” Com o outro, com a falta, com a solidão, com as minhas expectativas e com aquilo que espero que o amor resolva em mim.
O amor não elimina a falta. Mas, quando possível, pode criar um lugar onde duas pessoas, incompletas e diferentes, escolhem caminhar juntas sem exigir que uma salve a outra de tudo.
E talvez aí esteja uma forma mais madura de amar: não como promessa de completude, mas como encontro possível entre sujeitos que aprendem, pouco a pouco, a lidar com a própria falta sem transformar o outro em obrigação de preenchê-la.
Artigo escrito pela psicóloga Dra. Angélica Berres – professora no curso de Direito da Unespar e perita judicial.
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