Psicóloga Luana Berton fala sobre autoestima, carência emocional, medo da solidão e a pressão para estar em um relacionamento.

No dia 15 de agosto, é celebrado o Dia dos Solteiros. A data pode até parecer uma simples comemoração, mas também abre espaço para uma reflexão sobre a forma como a sociedade encara quem está sem um relacionamento. Ainda existe a ideia de que estar solteiro significa estar sozinho, incompleto ou apenas “esperando” alguém aparecer. Para a psicóloga clínica Luana Berton, porém, esse período pode ser vivido de uma maneira bem diferente: como uma oportunidade para olhar mais para si, entender o que realmente faz sentido e construir uma relação melhor consigo mesmo.

Luana atua há cerca de oito anos com atendimento psicológico de adultos, tanto individualmente quanto em terapia de casal. Ao longo desse caminho, percebeu que muitas das questões que chegam ao consultório passam, de alguma forma, pela maneira como as pessoas se relacionam.
Dificuldades de comunicação, ciúmes, dependência emocional, autoestima e conflitos afetivos fizeram com que ela buscasse cada vez mais conhecimento na área, especialmente nas Terapias Relacionais e Sistêmicas.
Afinal, por que existe tanta pressão para estar com alguém?
Para muita gente, estar solteiro ainda é desconfortável. E não necessariamente porque a pessoa queira estar em um relacionamento naquele momento, mas porque existe uma cobrança ao redor.
A família pergunta quando vai aparecer um namorado ou uma namorada. Amigos começam a casar. Nas redes sociais, aparecem fotos de viagens a dois, pedidos de casamento e declarações de amor. Aos poucos, pode surgir a sensação de que todo mundo está seguindo a vida, menos você.
Segundo Luana, essa pressão atinge homens e mulheres de maneiras diferentes. “As mulheres, por exemplo, sofrem pressões sociais maiores para estarem em uma relação e têm o seu valor como pessoa definido a partir do seu sucesso ou insucesso dentro dos relacionamentos”, explica.
Os homens também enfrentam cobranças, principalmente relacionadas à construção de uma família e à chegada dos filhos. Muitas vezes, essas expectativas vêm da própria família e acabam sendo tratadas como se fossem um caminho obrigatório.
O problema é que nem sempre aquilo que os outros esperam é aquilo que a pessoa realmente quer.

Quando é vontade de estar com alguém e quando é medo de ficar sozinho?
Essa talvez seja uma das perguntas mais difíceis. Nem sempre é simples perceber se existe uma vontade verdadeira de construir uma relação ou se a busca por alguém está ligada à carência e ao medo da solidão. No começo de um relacionamento, essa diferença pode ficar ainda mais difícil de enxergar por causa da paixão e do encantamento.
Por isso, Luana sugere algumas reflexões: essa relação traz mais paz ou mais ansiedade? Existe carinho, atenção e parceria? Os dois estão crescendo juntos?
Um relacionamento saudável não precisa ser perfeito, mas deve fazer com que as duas pessoas consigam se sentir respeitadas e valorizadas.
Quando uma relação constantemente limita, diminui ou gera mais sofrimento do que tranquilidade, é importante parar e olhar para aquilo que está acontecendo.
Antes de começar uma nova relação, talvez seja importante olhar para a anterior
Depois de uma separação, é comum surgir a vontade de seguir em frente rapidamente. Algumas pessoas acabam entrando em um novo relacionamento antes mesmo de conseguirem entender o que aconteceu no anterior.
Não existe um prazo certo para ficar solteiro. Cada pessoa tem seu próprio tempo. Mas, segundo Luana, é importante permitir que as experiências sejam processadas. “Quando emendamos uma relação na outra sem darmos tempo para processar a perda, costumamos projetar no novo amor todos os medos, inseguranças e traumas que ainda estão ali”, explica.
Aprender a ficar sozinho, cuidar de si e voltar a aproveitar a própria companhia pode fazer diferença. A ideia não é evitar relacionamentos, mas chegar a eles por escolha, e não por necessidade.
A solteirice não precisa ser uma sala de espera
Talvez essa seja uma das principais mudanças de olhar propostas pela psicóloga. Em vez de pensar que a vida começa quando aparece alguém, a solteirice pode ser aproveitada para fazer outras coisas que também trazem satisfação.
É um momento para cuidar da saúde, investir na profissão, retomar um hobby, viajar, fortalecer amizades, realizar projetos e descobrir coisas novas sobre si mesmo. “A solteirice não é um período de espera somente, ela precisa ser vivida como uma fase de crescimento e construção de si mesmo”, afirma Luana.
E isso pode fazer com que, quando um novo relacionamento aparecer, a pessoa já tenha uma vida própria, sonhos e objetivos que não dependam do parceiro.

O medo de ficar sozinho pode fazer alguém aceitar o que não deveria
Existem pessoas que sabem que determinada relação não faz bem, mas mesmo assim não conseguem terminar. Em alguns casos, o medo de ficar sozinho acaba falando mais alto.
Luana explica que esse medo pode estar relacionado a experiências vividas anteriormente, inclusive na infância e na adolescência. Essas experiências podem contribuir para que determinados padrões se repitam na vida adulta.
É justamente por isso que algumas pessoas acabam permanecendo em relações que sabem que são prejudiciais. Nessas situações, buscar ajuda profissional e contar com uma rede de apoio pode ser importante para conseguir romper esses ciclos e aprender a lidar com a solidão de uma maneira mais saudável.

Nas redes sociais, parece que todo mundo está vivendo um grande amor
Quem está solteiro também precisa lidar com outro desafio: a comparação. Basta abrir o Instagram para encontrar casamentos, viagens, jantares românticos, pedidos de namoro e declarações. Em determinados momentos, pode parecer que todo mundo encontrou a pessoa certa e está vivendo uma vida perfeita.
Mas a psicóloga lembra que as redes sociais mostram apenas uma parte da realidade. “As redes sociais dão a impressão muito superficial de que a vida e o relacionamento do outro é perfeita”, comenta.
Os problemas, as discussões, as inseguranças e as dificuldades que existem em qualquer relacionamento normalmente não aparecem nas fotos. Além disso, cada pessoa pode estar vivendo uma fase diferente. Enquanto alguém está construindo uma relação, outra pessoa pode estar crescendo profissionalmente, cuidando da saúde, viajando, estudando ou simplesmente vivendo um momento importante de descoberta pessoal.
Por isso, se comparar o tempo todo pode acabar trazendo sofrimento desnecessário.
Conhecer a própria história ajuda a escolher melhor
O autoconhecimento também tem um papel importante nos relacionamentos. Quando uma pessoa começa a perceber que determinadas situações se repetem, pode entender melhor por que costuma escolher determinados parceiros, quais comportamentos aceita e quais situações acabam se tornando frequentes.
Para Luana, isso tem relação com a própria história. “Nossa história, nossos primeiros vínculos, a forma como fomos cuidados e os exemplos que tivemos ajudam a construir ideias sobre quem somos, quanto valemos e o que acreditamos merecer em uma relação”, explica.
Olhar para isso não significa culpar o passado. Significa entender como as experiências anteriores podem estar influenciando as escolhas atuais.
E esse processo pode acontecer de várias formas, inclusive por meio da terapia.

Então, o que fazer enquanto não aparece alguém?
Para quem está solteiro e sente que precisa encontrar alguém para ser feliz, Luana deixa uma orientação simples: começar conhecendo melhor a si mesmo.
Quais são seus valores? O que é importante para você? Quais são seus sonhos? O que você não abre mão? Quais são os seus limites?
Ter essas respostas mais claras ajuda a perceber quais pessoas realmente combinam com aquilo que você deseja para a vida. “Quando você não tem clareza dos seus valores e dos seus limites, qualquer pessoa serve e provavelmente é aí que você se envolve em relações que te fazem mal”, destaca.
Por isso, a recomendação é viver. Fazer aquilo que traz sentido, frequentar lugares de que gosta, cultivar amizades e estar perto de pessoas que fazem bem. E talvez, no meio dessa vida que já está acontecendo, apareça alguém.
Não para completar o que estava faltando, mas para somar ao que já existe.
Sobre Luana Berton
A psicóloga Luana Berton realiza atendimentos individuais e de casal, com trabalho voltado ao autoconhecimento, à compreensão de padrões emocionais e à construção de relacionamentos mais conscientes e saudáveis.
Quem quiser conhecer melhor o trabalho pode acompanhar o Instagram @psicologaluanaberton ou entrar em contato pelo WhatsApp (42) 99149-5864.














