Em alusão ao Dia do Sexo, a psicóloga Tatiane J. Morais Passarini explica que fortalecer a vida a dois não significa necessariamente buscar algo grandioso ou exclusivamente sexual, mas criar momentos de presença, afeto e reconexão.

Com a rotina cada vez mais intensa, dividida entre trabalho, filhos, compromissos, contas e responsabilidades, muitos casais acabam deixando a própria relação em segundo plano. Aos poucos, os momentos de conversa, carinho, intimidade e diversão começam a perder espaço para as obrigações do dia a dia. Em alusão ao Dia do Sexo, celebrado em 6 de setembro, o assunto abre espaço para uma reflexão que vai muito além da sexualidade: quanto tempo os casais realmente têm reservado para cuidar da própria conexão?
Para a psicóloga Tatiane J. Morais Passarini, formada em Psicologia e Educação Física e especialista em Neurociência Afetiva, a intimidade ocupa um papel importante dentro de um relacionamento justamente porque envolve muito mais do que o ato sexual.
“A intimidade e a vida sexual podem exercer um papel importante na saúde de um relacionamento porque não se resumem ao ato sexual. Elas envolvem proximidade, afeto, desejo, troca, vulnerabilidade e a possibilidade de o casal se sentir visto, desejado e emocionalmente conectado”, explica.
Segundo a profissional, existe uma relação direta entre uma vida a dois satisfatória e a sensação de conexão, mas uma coisa também influencia a outra. “A satisfação sexual pode fortalecer a intimidade e a sensação de parceria, enquanto uma relação marcada por confiança, diálogo, carinho e segurança emocional também favorece uma vida sexual mais satisfatória”, destaca Tatiane.
Por isso, quando se fala em cuidar da vida íntima, o assunto não pode ser reduzido simplesmente à frequência das relações sexuais. “Precisamos abandonar a ideia de que existe uma frequência sexual ideal para todos os casais. Cada relacionamento possui sua própria dinâmica. O mais importante é que ambos se sintam respeitados, desejados, seguros e satisfeitos com a forma como vivenciam sua intimidade”, afirma.
Para a psicóloga, inclusive, a intimidade começa muito antes de qualquer momento sexual. “A intimidade é construída nas pequenas demonstrações de cuidado, na escuta, no respeito, no toque, na admiração e na disponibilidade emocional para o outro.”

Quando o casal passa a administrar apenas a rotina
Um dos principais desafios das relações duradouras aparece justamente com o passar dos anos. A vida muda, surgem novas responsabilidades e os compromissos aumentam. O problema não está necessariamente em ter uma rotina, mas em permitir que ela ocupe todo o espaço da relação.
“A rotina, por si só, não é necessariamente um problema. Trabalho, filhos, responsabilidades e preocupações fazem parte da vida de muitos casais. O ponto de atenção aparece quando, ao longo do tempo, o relacionamento passa a existir apenas em torno das obrigações e o casal deixa de reservar espaço para a conexão”, explica Tatiane.
Esse processo pode acontecer de forma lenta e quase imperceptível. “O casal continua compartilhando a casa, os filhos, as contas e a rotina, mas começa a compartilhar cada vez menos sentimentos, carinho, conversas, experiências e momentos de intimidade. Aos poucos, podem deixar de se perceber como parceiros afetivos e passar a funcionar apenas como uma equipe que administra a vida.”
Essa distância emocional também pode refletir diretamente no desejo. Conforme a psicóloga, nem sempre a diminuição do interesse sexual representa falta de amor ou atração. “Muitas vezes, a diminuição do desejo não é simplesmente falta de interesse pelo parceiro, mas consequência de cansaço, sobrecarga, estresse, conflitos não resolvidos e da ausência de momentos de conexão ao longo do dia”, ressalta.
Por isso, cuidar da relação não exige necessariamente grandes viagens, presentes ou programas elaborados. “Pode ser conversar sem falar apenas sobre problemas, demonstrar carinho, trocar um abraço, ter um momento juntos, olhar um para o outro com presença e interesse. A intimidade precisa ser cultivada.”

Sair da rotina é sair do piloto automático
Quando se fala em “apimentar a relação”, muitas pessoas imediatamente associam a expressão a experiências sexuais diferentes. Para Tatiane, entretanto, sair da rotina possui um significado muito mais amplo.
“Um jantar a dois, uma viagem, um passeio diferente ou até algumas horas em um motel podem proporcionar algo que muitas vezes fica escasso na rotina: tempo de qualidade, privacidade, presença e a oportunidade de o casal voltar a se enxergar para além dos papéis de pais, profissionais e responsáveis pela casa”, explica.
A mudança de ambiente também pode favorecer a sensação de novidade, curiosidade e espontaneidade. “Esses momentos podem favorecer a novidade, a espontaneidade, o desejo e a reconexão emocional. A novidade também pode tirar o relacionamento do chamado piloto automático e estimular a atenção e a curiosidade um pelo outro.”
Mas a profissional reforça que não existe necessidade de transformar esses momentos em grandes acontecimentos. “Não é necessário fazer algo grandioso ou caro. Às vezes, uma mudança simples na rotina, um café juntos sem celular, uma caminhada, um jantar preparado pelos dois, algumas horas sozinhos ou um momento de carinho sem expectativa de relação sexual já pode criar espaço para a conexão.”
Para ela, essa talvez seja a principal mensagem quando o assunto é manter uma relação saudável ao longo dos anos. “No fundo, não se trata apenas de sair da rotina, mas de sair do piloto automático. O que fortalece o vínculo é a intenção de continuar conhecendo, cuidando, desejando e escolhendo o outro ao longo do tempo.”

Um ambiente diferente também pode ajudar
Entre as possibilidades utilizadas por alguns casais para quebrar a rotina está justamente a escolha de um ambiente diferente da própria casa. Apesar disso, o motel ainda é cercado por alguns preconceitos.
“Ainda existe certo tabu em torno do motel, muitas vezes associado exclusivamente à infidelidade, à sexualidade escondida ou a algo inadequado. Mas essa percepção não corresponde à realidade de todos os casais. Para muitos, o motel pode ser simplesmente um espaço de privacidade, liberdade e quebra da rotina”, explica Tatiane.
Do ponto de vista psicológico, a mudança de ambiente pode ajudar justamente porque o espaço influencia comportamentos e emoções. “Em casa, especialmente para casais com filhos, é comum que o quarto esteja associado a sono, trabalho, organização, responsabilidades e interrupções. Mudar de ambiente pode ajudar a interromper temporariamente esse ciclo e favorecer uma experiência de maior presença entre o casal.”
Segundo ela, o principal elemento não é necessariamente o local escolhido, mas o significado daquele momento. “Não é o lugar em si que promove a conexão, mas a experiência de criar um momento em que os dois possam se dedicar um ao outro, sem as demandas habituais da rotina.”
Ela reforça ainda que frequentar um motel não deve ser visto nem como sinal de problema no relacionamento nem como obrigação para manter uma vida íntima saudável. “É apenas uma possibilidade entre tantas outras. Para alguns casais, pode ser divertido, estimulante e favorecer a intimidade. Para outros, simplesmente não faz sentido e tudo bem. O mais importante é que a escolha seja consensual, confortável para os dois e faça parte de uma relação em que exista diálogo, respeito e liberdade para falar sobre desejos e limites.”
Pequenas atitudes mantêm a relação viva
Outra crença comum é imaginar que relacionamentos longos precisam constantemente de grandes novidades para manter o interesse. Na avaliação da psicóloga, pequenas atitudes podem ter um impacto ainda maior.
“Em um relacionamento de muitos anos, manter o interesse um pelo outro não significa necessariamente estar sempre buscando algo extraordinário ou diferente. Muitas vezes, são as pequenas atitudes, repetidas com intenção, que mantêm o vínculo vivo.”
A familiaridade é natural, mas não deve se transformar em desinteresse. “Sabemos a rotina, as preferências, os hábitos e até conseguimos antecipar respostas. O desafio é não deixar que essa familiaridade se transforme em acomodação”, afirma.
Nesse sentido, Tatiane destaca a importância de continuar tendo curiosidade pelo parceiro. “Continuar perguntando, conversando, ouvindo, admirando e descobrindo quem o outro está se tornando. Afinal, nós mudamos ao longo da vida, e o parceiro que temos hoje não é exatamente a mesma pessoa que conhecemos anos atrás.”
Uma mensagem inesperada, um elogio, um jantar, um passeio ou simplesmente uma conversa sem celular podem ajudar. “Novidade não precisa significar uma grande viagem ou uma experiência completamente diferente. Pode ser um jantar a dois, uma mensagem carinhosa durante o dia, um elogio inesperado, um passeio ou experimentar algo novo na intimidade.”

Falar sobre intimidade também é se conectar
Se existe um ponto fundamental para que a relação permaneça saudável, ele passa pela comunicação. Entretanto, conversar sobre sexo, preferências e desejos ainda pode ser difícil para muitos casais.
“A comunicação é um dos pilares de uma vida íntima saudável, mas falar sobre sexualidade nem sempre é fácil. Muitas pessoas foram educadas para enxergar esse assunto como algo que deve ser evitado, e isso pode gerar vergonha, medo de julgamento ou dificuldade para expressar o que desejam”, afirma Tatiane.
Para ela, essas conversas não precisam acontecer apenas quando surge algum problema. “O diálogo também pode ser uma forma de aproximação e descoberta do outro.” O ideal é que a conversa aconteça em um momento tranquilo, sem pressa e sem cobranças.
“Em vez de começar com críticas, o casal pode falar a partir das próprias experiências: ‘Eu gosto quando…’, ‘Eu me sinto mais conectado quando…’, ‘Tenho curiosidade de experimentar…’ ou ‘Existe algo que não me deixa confortável e gostaria de conversar sobre isso’.”
Escutar também é parte fundamental desse processo. “Quando o parceiro compartilha um desejo, isso não significa que o outro seja obrigado a aceitar ou realizar. Da mesma forma, dizer não para determinada prática não significa rejeitar a pessoa. Intimidade saudável pressupõe consentimento, respeito aos limites e liberdade para que ambos possam expressar o que querem e o que não querem.”

Autoestima também influencia a intimidade
Além da conexão entre o casal, a relação que cada pessoa possui consigo mesma também interfere na vida sexual. Inseguranças relacionadas ao corpo, medo de julgamento ou preocupação excessiva com desempenho podem dificultar a experiência.
“Quando existe muita insegurança, vergonha ou medo de não corresponder às expectativas do parceiro, a pessoa pode ter dificuldade de estar verdadeiramente presente naquele momento”, explica.
Segundo Tatiane, a pessoa deixa de perceber as próprias sensações e passa a observar a si mesma. “É como se uma parte da atenção saísse da experiência para ficar observando e avaliando a si mesma.”
Esse comportamento pode interferir no desejo, na espontaneidade e até na satisfação sexual. “A intimidade acontece com mais liberdade quando conseguimos diminuir a autocobrança e permitir que o corpo seja vivido, e não constantemente avaliado.”
Diferenças de desejo não significam falta de amor
Outro desafio comum nos relacionamentos aparece quando um parceiro possui mais desejo sexual que o outro. Tatiane destaca que essa diferença pode ocorrer em diferentes fases da vida e não significa necessariamente que exista algum problema grave no relacionamento. “O desejo sexual pode variar ao longo da vida e ser influenciado por estresse, cansaço, rotina, questões emocionais, conflitos, alterações hormonais, medicamentos, saúde física e a própria fase de vida”, explica.
O principal cuidado deve ser evitar transformar a situação em cobrança. “Quando o sexo passa a ser associado à obrigação ou ao medo de decepcionar o parceiro, a tendência é aumentar ainda mais a pressão e diminuir a espontaneidade.”

A psicóloga recomenda que o casal tente compreender o que está acontecendo antes de interpretar a situação como rejeição. “Em vez de ‘você não me deseja mais’, podemos perguntar: ‘Como você tem se sentido?’, ‘Existe alguma coisa afetando seu desejo?’ ou ‘O que podemos fazer para nos sentirmos mais próximos novamente?’.”
Ela reforça ainda que o consentimento precisa estar presente em qualquer relação íntima. “Ninguém deve se sentir obrigado a ter uma relação sexual para evitar uma discussão ou satisfazer uma expectativa.”
Dia do Sexo pode ser um convite para olhar para a própria relação
Para Tatiane, o Dia do Sexo pode ser aproveitado justamente para promover uma reflexão dentro dos relacionamentos. “Mais do que celebrar o sexo, a data pode ser um convite para falar sobre intimidade, desejo, conexão e sobre como o casal está cuidando da própria relação.”
E novamente, não precisa existir qualquer obrigação de que a comemoração termine necessariamente em uma relação sexual. “Para alguns casais, a melhor forma de se reconectar pode ser justamente desacelerar e criar um momento de qualidade juntos.”
Ela sugere começar pelo diálogo. “Desligar os celulares, deixar por algumas horas as preocupações e conversar. Perguntar ao parceiro: ‘Como você tem se sentido na nossa relação?’, ‘Do que você sente falta?’, ‘O que você gostaria que fizéssemos mais juntos?’ ou ‘O que faz você se sentir desejado e amado?’.”
Depois disso, cada casal pode escolher aquilo que possui significado para os dois. “Pode ser preparar um jantar, sair para um lugar diferente, tomar um vinho, assistir a um filme abraçados, fazer uma massagem, viajar, reservar algumas horas em um ambiente diferente ou simplesmente criar um espaço de privacidade em casa.”
A mensagem central, segundo a psicóloga, está muito mais na intenção do que no tamanho da experiência. “Às vezes, o que um relacionamento precisa não é de uma grande mudança, mas de um pequeno gesto que diga: ‘Eu ainda quero estar aqui com você. Quero cuidar da nossa conexão’.”

O primeiro passo pode ser simplesmente conversar.
Para quem sente que a relação já caiu completamente na rotina, Tatiane orienta que o casal não espere o distanciamento crescer ainda mais para começar a agir. “Muitas vezes, não é a falta de amor que afasta um casal, mas a falta de tempo, presença e atenção para aquilo que um dia foi prioridade.”
O primeiro passo pode ser uma conversa verdadeira. “Não para apontar culpados ou listar o que está errado, mas para olhar um para o outro e reconhecer: ‘Nós estamos diferentes. Como podemos nos reencontrar?’.”
Depois, as mudanças podem começar aos poucos. “Retomar o carinho, o toque, os elogios, os momentos a dois, o interesse pela vida do outro e até criar novas experiências juntos.”
Para ela, não existe fórmula única para manter a conexão. “Cada casal tem sua história, seus desafios e sua maneira de amar. O importante é não deixar de cuidar desse vínculo.”
Quando as dificuldades são maiores e o casal não consegue sozinho romper o ciclo de afastamento, a ajuda profissional também pode fazer parte desse cuidado. “Buscar ajuda profissional não significa que o relacionamento fracassou. Significa reconhecer que aquela relação é importante o suficiente para receber cuidado.”
No fim, a principal reflexão deixada pela psicóloga em alusão ao Dia do Sexo talvez seja justamente esta: sair da rotina não significa necessariamente procurar algo grandioso, caro ou exclusivamente sexual.
Significa criar espaço. Espaço para conversar. Para ouvir. Para demonstrar carinho. Para experimentar algo diferente quando houver vontade dos dois. Para voltar a olhar para quem está ao lado não apenas como pai, mãe, profissional ou responsável pelas contas e compromissos, mas como parceiro.
“Amar alguém não é apenas permanecer ao lado dessa pessoa. É continuar escolhendo a conexão, mesmo depois que a novidade passa”, conclui Tatiane.
Conheça a psicóloga Tatiane J. Morais Passarini
Tatiane J. Morais Passarini é formada em Psicologia e Educação Física e especialista em Neurociência Afetiva. Sua atuação parte da compreensão de que saúde emocional, corpo, comportamento e relações estão diretamente conectados.
Atualmente, trabalha com psicoterapia clínica, integrando conhecimentos da Psicologia, Neurociência Afetiva e Educação Física. Sua atuação busca auxiliar pacientes a compreender pensamentos, emoções e padrões de comportamento, desenvolvendo maior autoconhecimento, autonomia e recursos para mudanças.
Além dos atendimentos clínicos, Tatiane também desenvolve conteúdos, palestras e projetos voltados à saúde emocional, relacionamentos, habilidades socioemocionais, autoconhecimento e desenvolvimento pessoal.
Os atendimentos são realizados presencialmente em União da Vitória, em consultório anexo à Clínica La Vie, localizado na Rua Ipiranga, nº 31, sala 205, Edifício Comercial Santa Terezinha, e também de forma on-line para diferentes regiões do Brasil.
Para acompanhar seu trabalho, a profissional pode ser encontrada no Instagram pelo perfil @tatipassarinipsipersonaltraine e também no Google como Tatiane J. Morais Passarini.
Informações e agendamentos podem ser realizados pelo WhatsApp (42) 99919-5981.
Essa versão deixa a matéria com uma abordagem mais jornalística e reflexiva, enquanto as declarações da psicóloga funcionam como sustentação para o texto e dão bastante autoridade ao conteúdo.













